Multiplicação e Miopia I – Marco Buti

                  Multiplicação e Miopia I

Com o estabelecimento do processo de matriz e estampa, inicialmente com  a xilogravura, em seguida com a gravura em metal, começavam a mudar radicalmente as possibilidades de contato com o trabalho artístico, e seu potencial alcance. A obra podia ser altamente móvel, mesmo que o espectador permanecesse fixo. A noção de espaço público seria obrigada a mudar: não bastava mais a colocação em pontos tidos como de presença obrigatória. A imagem multiplicável era agora capaz de atingir muito mais pessoas que os passantes em certo local. A imprensa se associaria em seguida a estas novas possibilidades. Imagem e letra podem acompanhar de perto os acontecimentos políticos, ou provocá-los. Tudo isso começa a acontecer no início do século XV, e no seguinte está altamente organizado. Quando Lutero afixa seu famoso manifesto em Wittemberg, não se trata de um exemplar único. Muitos outros estavam circulando.

Apesar do largo tempo de existência, o conceito de obra circulante não foi bem absorvido no universo das artes visuais. O espaço artístico ainda consegue ser pensado tendo limites tão definidos como a soleira da galeria e do museu, quando deveríamos pensar em zonas de transição menos bem traçadas. Trabalhos com vocação à ampla circulação, como vídeos e fotografias, seguem o modelo da pintura e da escultura única, e são apresentados em espaços fechados, com acesso controlado, reivindicando um papel político. Por outro lado, instalar um trabalho em algum ponto da metrópole, parece suficiente para torná-lo absolutamente público, como se o espaço público fosse apenas físico e não principalmente mental, e não fosse possível passar a vida inteira sem passar naquele ponto. Onde se situa o ágora de São Paulo?

Juntamente com a multiplicação, ia sendo formado o conceito moderno de artista, criador por excelência, procurando ser reconhecido por um nível  social que não aprecia e não entende o trabalho manual. Desde o início da História da Arte, tal artista é compreendido preferencialmente como pintor, escultor ou arquiteto. Torna-se difícil, conhecendo apenas a ortodoxia, até conceber artistas que não atuam dentro de espaços oficiais, ou tornados oficiais, mas se manifestam nas áreas mais vulgares  dos processos de ampla circulação, tidos como comerciais, por levar em conta os interesses do público comum. É digno de nota ter-se  tentado reagir ao excesso de interesses monetários através de trabalhos que se pretendem invendáveis ou são efêmeros, em lugar da possibilidade mais óbvia e secularmente estabelecida do objeto repetido a baixo preço. Deste ângulo, José Guadalupe Posada, artista atuante na imprensa industrial mexicana  nos século XIX e início do XX, contestaria mais a noção estabelecida de arte e artista do que Marcel Duchamp.

 

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  1. agosto 29, 2011 às 3:43 pm

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